quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Passarinha Liberdade II

(cuidado em liberdade - continuação)

rebuliço na colmeia,

as abelhas operárias
e o pólen furta-cor,
então, para várias delas,
a abelha-mestra perguntou:

"de onde veio este pólen?
vai dar um mel tão melhor?
mel de inigualável sabor!"


uma abelhinha teve uma ideia,
uma abelhinha contraintuitiva,
uma abelhinha também operária,
mas uma abelhinha muito ativa:

ela, abelhinha saiu solitária,
saiu atrás de uma flor no asfalto,
só uma abelhinha contraintuitiva,
uma abelhinha operária,
mas, operária e curiosa,
pra buscar uma flor lá.
para voar o impossível,
sobre chão improvável,
mas voou longe,
mas voou alto,
ignorou cravo,
bem-me-quer,
margarida, rosa
e mal-me-quer.

achou.

pousou na flor furta-cor,
a flor de frágil liberdade,
e perguntou com amor,

"liberdade, qual a tua vontade?"

(abelhas não criam problema,
nem nada com esse tema,
e a resposta foi um poema)

"...a cem metros daqui
no centésimo andar
há uma centena de dias
no apartamento de um homem cinzento
um passarinho não pode voar
preso em gaiola dourada
não pode ninguém visitar
já desistiu de cantar
e, se seu canto é sua vida,
cravo, rosa, mal-me-quer, margarida,
o passarinho desistiu de viver."


e entregou um bilhete à abelhinha,
a sua volta, as pessoas coloridas,
também quiseram ajudar:

a pessoa vermelha
tirou do bolso azul
do casaco verde
uma chave amarela,

a pessoa amarela
tirou da sacola vermelha
um pacotinho azul
com um grão verde,

a pessoa verde
tirou da mochila amarela
um pote vermelho
com um copo d'água azul,

a pessoa azul
tirou uma bolsa verde
e, de uma carteirinha amarela,
tirou uma moedinha vermelha.

e abelhinha agradeceu,
subiu ao céu devagar,
devagar e a zigzagear,
para cumprir a tarefa,
que ninguém impeça
a abelhinha contraintuitiva,
não tem tarifa, nem tabefe,
tabela, tarifa, cifra ou chiclete,
uma boa abelhinha não blefa.

a cem metros dali,
no centésimo andar,
a janela entreaberta.
contraintuitiva,
mais que furtiva,
atravessou a sala,
ignorou a televisão,
iria sim cumprir sua missão,

"passarinho, passarinho,
não fique assim não,
não há ninho vazio,
onde há uma canção"


com a chave amarela
abriu a gaiola dourada,
o passarinho, muito grato,
comeu do grão verde,
bebeu do copo azul,
e, a ele, com mais forças,

ela entregou o bilhete
da frágil flor furta-cor liberdade,
passarinho leia com atenção,
você tem a quem lhe dê a mão:

"passarinho,

voe, os céus são seu lugar,
e ouça o som das estrelas,
chegue perto delas ao voar,
e refaça canções mais belas.

até breve,
fffcl"


e, voaram, pela janela,

abelhinha e passarinho,
cada um a seu tempo.

e a moeda vermelha?
ora, toda operária merece seu salário...


(o homem cinzento nem notou,
vendo sangue e ódio na tevê)

e o pássaro voou batendo as asas
sobre os carros e sobre as casas,
voou sobre as matas e as estradas
para isso são feitas suas asas,
voou pela janela em direção aos ares,
saiu do cinza da prisão daquela casa,
foi conhecer mais lugares,
todos nas mesmas áreas.

nota do editor:
voar é para o que é cada asa
(se você não for pássaro
e não tiver nenhuma asa,
nem tente isso em casa)


o antigo cinza foi ficando pra trás,
e cada uma de suas penas
foram uma a uma se colorindo,
cada uma de uma cor cada,
para quem tinha pena só cinza,
viraram penas de muitas cores,
eram em ordem contraintuitiva,
impossível de ser prevista,
nem pelos computadores,

do céu que o pássaro riscava,
as pessoas de todas as cores
eram ali furta-cores no chão.

do chão, o pássaro pra elas,
do asfalto, margem da estrada,
era um ponto furta-cor no céu.

a abelhinha pôs no bolso azul
da bolsa verde na mochila amarela,
com carinho, sua moeda vermelha.

a flor furta-cor liberdade lhe presenteou
com uma medida sacudida
de pólen furta-cor.

ela sabia,
"a abelha-mestra vai vibrar,
mas não quero nenhuma promoção,
abelhas nunca ligaram pra isso não."


na colmeia:
"viva a abelhinha contraintuitiva!"


as pessoas coloridas olhavam pra cima,
não viram, coisa estranha aconteceu,
a flor furta-cor liberdade desapareceu
ficaram tristes, a flor tinha grande estima,

em seu lugar, ali, do chão brotou acima,
sim, logo acima, a liberdade frutificou,
frutos furta-cores, e todas as cores
colheram frutos de muitos tamanhos,
muitos formatos e muitos sabores,

...e frutas têm sementes...

muitas sementes para espalhar liberdade,
em todos os cantos e jardins da cidade,
nas áreas, nas praças, nas ruas e arredores,
podemos esperar o desabrochar de mais flores.

ACHO QUE ISTO É UM FIM

cena pós-créditos:
o quase-valente sabor-cinzento levanta vai à geladeira cinza pôr sabor-queijo num sabor-pão para engolir com sabor-café. para, olha, constata a gaiola aberta e diz: "ain, quem foie o abelhudoe?", fecha a gaiola dourada com a chave amarela, "isto é para ficar trancadoe!".


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