domingo, 16 de agosto de 2026

enamorada das cores

ao vires chuva e sol
chuva e sol ao vires
estarás na morada
plena do pote de ouro
dentro de um arco-íris

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A Exceção e a Regra

(cultura é saúde)

mens sana in corpore sano
alguém culto nos legou

cultura é mens sana
saúde é corpore sano
devemos rezar
por saúde e cultura

a regra é a cultura
a exceção é a arte
a regra é a saúde
a exceção é a loucura
sem algo de loucura
a vida se faz dura
sem algo que aparte
da dura normalidade
a exceção da arte
na rigidez da cultura

por favor, não me mude
sou assim a esta altura
um pouco de saúde
numa alma imatura
deixe longe a armadura
que apenas nos ilude
um corpo de saúde
num pouco de cultura

assim faz a sanidade
os 'artecorpos' da loucura
e os anticorpos da saúde
para sair da noite escura
porque cultura é saúde
e saúde é cultura

orandum est ut sit mens sana in corpore sano
orar para que haja uma mente sã em um corpo são

porque loucos todos sãos

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Passarinha Liberdade II

(cuidado em liberdade - continuação)

rebuliço na colmeia,

as abelhas operárias
e o pólen furta-cor,
então, para várias delas,
a abelha-mestra perguntou:

"de onde veio este pólen?
vai dar um mel tão melhor?
mel de inigualável sabor!"


uma abelhinha teve uma ideia,
uma abelhinha contraintuitiva,
uma abelhinha também operária,
mas uma abelhinha muito ativa:

ela, abelhinha saiu solitária,
saiu atrás de uma flor no asfalto,
só uma abelhinha contraintuitiva,
uma abelhinha operária,
mas, operária e curiosa,
pra buscar uma flor lá.
para voar o impossível,
sobre chão improvável,
mas voou longe,
mas voou alto,
ignorou cravo,
bem-me-quer,
margarida, rosa
e mal-me-quer.

achou.

pousou na flor furta-cor,
a flor de frágil liberdade,
e perguntou com amor,

"liberdade, qual a tua vontade?"

(abelhas não criam problema,
nem nada com esse tema,
e a resposta foi um poema)

"...a cem metros daqui
no centésimo andar
há uma centena de dias
no apartamento de um homem cinzento
um passarinho não pode voar
preso em gaiola dourada
não pode ninguém visitar
já desistiu de cantar
e, se seu canto é sua vida,
cravo, rosa, mal-me-quer, margarida,
o passarinho desistiu de viver."


e entregou um bilhete à abelhinha,
a sua volta, as pessoas coloridas,
também quiseram ajudar:

a pessoa vermelha
tirou do bolso azul
do casaco verde
uma chave amarela,

a pessoa amarela
tirou da sacola vermelha
um pacotinho azul
com um grão verde,

a pessoa verde
tirou da mochila amarela
um pote vermelho
com um copo d'água azul,

a pessoa azul
tirou uma bolsa verde
e, de uma carteirinha amarela,
tirou uma moedinha vermelha.

e abelhinha agradeceu,
subiu ao céu devagar,
devagar e a zigzagear,
para cumprir a tarefa,
que ninguém impeça
a abelhinha contraintuitiva,
não tem tarifa, nem tabefe,
tabela, tarifa, cifra ou chiclete,
uma boa abelhinha não blefa.

a cem metros dali,
no centésimo andar,
a janela entreaberta.
contraintuitiva,
mais que furtiva,
atravessou a sala,
ignorou a televisão,
iria sim cumprir sua missão,

"passarinho, passarinho,
não fique assim não,
não há ninho vazio,
onde há uma canção"


com a chave amarela
abriu a gaiola dourada,
o passarinho, muito grato,
comeu do grão verde,
bebeu do copo azul,
e, a ele, com mais forças,

ela entregou o bilhete
da frágil flor furta-cor liberdade,
passarinho leia com atenção,
você tem a quem lhe dê a mão:

"passarinho,

voe, os céus são seu lugar,
e ouça o som das estrelas,
chegue perto delas ao voar,
e refaça canções mais belas.

até breve,
fffcl"


e, voaram, pela janela,

abelhinha e passarinho,
cada um a seu tempo.

e a moeda vermelha?
ora, toda operária merece seu salário...


(o homem cinzento nem notou,
vendo sangue e ódio na tevê)

e o pássaro voou batendo as asas
sobre os carros e sobre as casas,
voou sobre as matas e as estradas
para isso são feitas suas asas,
voou pela janela em direção aos ares,
saiu do cinza da prisão daquela casa,
foi conhecer mais lugares,
todos nas mesmas áreas.

nota do editor:
voar é para o que é cada asa
(se você não for pássaro
e não tiver nenhuma asa,
nem tente isso em casa)


o antigo cinza foi ficando pra trás,
e cada uma de suas penas
foram uma a uma se colorindo,
cada uma de uma cor cada,
para quem tinha pena só cinza,
viraram penas de muitas cores,
eram em ordem contraintuitiva,
impossível de ser prevista,
nem pelos computadores,

do céu que o pássaro riscava,
as pessoas de todas as cores
eram ali furta-cores no chão.

do chão, o pássaro pra elas,
do asfalto, margem da estrada,
era um ponto furta-cor no céu.

a abelhinha pôs no bolso azul
da bolsa verde na mochila amarela,
com carinho, sua moeda vermelha.

a flor furta-cor liberdade lhe presenteou
com uma medida sacudida
de pólen furta-cor.

ela sabia,
"a abelha-mestra vai vibrar,
mas não quero nenhuma promoção,
abelhas nunca ligaram pra isso não."


na colmeia:
"viva a abelhinha contraintuitiva!"


as pessoas coloridas olhavam pra cima,
não viram, coisa estranha aconteceu,
a flor furta-cor liberdade desapareceu
ficaram tristes, a flor tinha grande estima,

em seu lugar, ali, do chão brotou acima,
sim, logo acima, a liberdade frutificou,
frutos furta-cores, e todas as cores
colheram frutos de muitos tamanhos,
muitos formatos e muitos sabores,

...e frutas têm sementes...

muitas sementes para espalhar liberdade,
em todos os cantos e jardins da cidade,
nas áreas, nas praças, nas ruas e arredores,
podemos esperar o desabrochar de mais flores.

ACHO QUE ISTO É UM FIM

cena pós-créditos:
o quase-valente sabor-cinzento levanta vai à geladeira cinza pôr sabor-queijo num sabor-pão para engolir com sabor-café. para, olha, constata a gaiola aberta e diz: "ain, quem foie o abelhudoe?", fecha a gaiola dourada com a chave amarela, "isto é para ficar trancadoe!".


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Passarinha Liberdade

(cuidado em liberdade - continua)

cuidado, a liberdade!
rompeu o asfalto uma flor furta-cor
uma florzinha frágil desabrochou sem dor

em meio ao fluxo imparável
à margem, na calçada,
que a multidão parou
ao largo da estrada
que o povo comentou:

pessoa vermelha: a liberdade parece uma rosa!
pessoa azul: deixa de prosa, parece um cravo!
pessoa verde: assim eu travo, parece a margarida!
pessoa amarela: minha vida, é meu bem-me-quer!
todas as cores: com ela não farão mal-me-quer!
a liberdade é sim, assim:
cada um cuida como sabe e vê como é

•••

a cem metros dali
no centésimo andar
há uma centena de dias
no apartamento de um homem cinzento
um passarinho não pode voar
preso em gaiola dourada
não pode a flor liberdade visitar
já desistiu de cantar
e, se seu canto é sua vida,
cravo, rosa, mal-me-quer, margarida,
o passarinho desistiu de viver...

todas as cores:
passarinho, passarinho,
não faça isso,
você não está sozinho
a liberdade é uma flor frágil que se há de cuidar
e não existe uma liberdade que não se pode ver
se cuidar exige viver, ouvir, escutar, conviver e amar

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Respigadora


vamu
fio
catá grão
nus campo
grão dourado
que o Sol
dexô


o Sol:
deixei grãos no chão
o preço matemático
de recolher tais grãos
e pôr guarda-campo
dá um custo máximo
cálculo econômico
the commodities
prices and logs

não compensa
só dou permissão
com documentação
papel burocrático
atestando pobreza
faço vista pouca
não dou a mínima
essa gente grossa
catando aqui
na minha roça
catando o grão
limpando o chão
mas sine glossa

vamu
fio
catá grão
nus campo
grão dourado
que o Sol
dexô
tô gradecida
meu sinhô


o Chão:
uma senhorinha bruta
de madressilva moça
vestida de peças rotas
sob o sol na labuta
aquilo que não troca
vem da mão à boca
a mãezinha luta
o dorso em curva
dia a dia sol a sol
por pouco um grão
por pouco um pão
como quem grita
e ninguém escuta
mãozinhas grossas
numa catação muda
e a vida nunca muda
a vida muda não
vou fazer uma oração
porque Deus ajuda
quem nessa vida dura
tem duração
e conduta
ainda assim
a senhorinha bruta
de madressilva moça
cantarola uma canção
que tá tudo bão
que tá tudo bem
que assim seja

vamu
fio
catá grão
nus campo
grão dourado
que o Sol
dexô
tô gradecida
meu sinhô


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quadro: Des glaneuses (1857) Jean-François Millet

domingo, 26 de julho de 2026

canção artística

pode ser que seja igual
pode ser diferente de você
pode ser bem pode ser mal
tudo o que quiser pode ser

pode ver de perto sou
pode ver longe além doce você
pode ver lá pode ver só
está bom viver pode ver

vô lá vê me leva
vô lá vê me leva lá
vô lá vê me leva lá lá lairá

pode ler a sua e a minha dor
pode ler tanto e tão pouco o ser
pode a prosa o verso e o amor
está tudo certo pode ler

pode ter paixão fatal
pode ter muito suor de tanto arder
pode ter cor pode ter sal
e ternura pode pode ter

vô lá vê me leva
vô lá vê me leva lá
vô lá vê me leva lá lá lairá

a arte inda faz ser
a arte vinda
a arte sendo você
a arte sonda
a quem ela não vier tragar
destrave os sons

a arte inda faz ter
a arte ronda
a arte lendo você
a arte senda
o-o estômago mostra seu dom
e o coração guia-se também

a arte inda faz crer
a arte fenda
a arte vendo você
a arte lenda
o mundo conduz a mão
o-o estômago diz se tá bom
e o coração diz se tá bem

a arte inda faz ver
a arte linda
a arte rende você
a arte finda
a quem a ela não se entregar
entregue os dons

pode ver no céu xamã
pode ser vida e morte o que mais vier
pode crer terra de amanhã
tudo o que quiser enaltecer

pode crer no mel no elã
pode ter letra e a sorte merecer
pode ler terra nossa irmã
tudo o que quiser pode crer

vô lá vê me leva
vô lá vê me leva lá
vô lá vê me leva lá lá lairá

vô lá vê me leva
vô lá vê me leva lá
vô lá vê me leva lá lá lairá

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Aforismos Julho 26

Entre a minha e a tua vontade há todo o Universo.
•••
Atribui-se ódio às Sagradas Escrituras. Todo capítulo bíblico diz o mal, mas também diz o bem. A Bíblia não é para ficar alegre, é para tornar-se sábio.
•••
Já basta todo o mal, abastecendo toda rede social.
•••
O pronome relativo "que" é o coringa da gramática.
•••
A vida não é justa, a vida é cruel, mas a vida é o que se tem.
•••
O espírito da guerra jaz nas batalhas de um dia a dia comum.
•••
Tudo se faz passo a passo no dia a dia.
•••
Publicitários prescrevem produtos; médicos, remédios; e psicólogos, comportamentos.
•••
Sem as paixões da loucura, a sabedoria seria apenas uma folha em branco.
•••
As dores abrasam o nosso coração, as cores acendem a nossa emoção, e as flores evocam a mais bela estação.

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

a cor da cor da cor da cor d

nós não somos nós
nós somos a corda
essas redes tortas
dão liga ao mundo
ligação das cordas
ligação das coisas
cordas harmônicas
coisas melódicas
somos super cordas
coisas que acordas
no cerne nas bordas
coração e cordão
de nós de cordas
figura e fundo
das coisas
do mundo

discordas?

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quarta-feira, 22 de julho de 2026

não diz coisa com coisa

atenção você que diz:

"todo louco é criminoso
e todo criminoso é louco".

não faça um culto à ignorância.

alho é alho, e bugalho é bugalho,
não troque alhos por bugalhos.

gato é gato, e lebre é lebre,
não compre gato por lebre.

joio é joio, e trigo é trigo,
há que separar o joio do trigo.

pão é pão, e queijo é queijo.

porque
uma coisa é uma coisa,
e outra coisa é outra coisa.

viu, como é bom
ser um pouco
pão-pão, queijo-queijo?

é assim, tim-tim por tim-tim.

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destruição da dignidade

há três tipos de estigmas contra a loucura:

1) o estigma da sociedade.

2) o estigma do/a psiquiatra, psicólogo/a, psicanalista, terapeuta ocupacional, enfermeiro/a, etc...

3) o estigma que o louco introjeta para dentro de si.

e, advinha quem IMPÕE a introjeção do estigma ao louco?

resposta: sim, os itens 1) e 2).

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golpes da inobservância e da inoperância

dois golpes na praça:

1. o criminoso comete um crime contra o louco, o louco denuncia, o criminoso diz que é delírio do louco e sai impune

2. o criminoso comete um crime e põe a culpa no louco que não consegue explicar o acontecido, o criminoso sai impune

proibido falar isso!
é polêmica!
silêncio ensurdecedor!

não são golpes de pobres e são golpes imateriais

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golpe da inoperância e da inobservância

há um golpe sofisticadíssimo na praça:

fazer uma pessoa ficar louca
(é preciso estrutura, número de participantes e poder),

após ou concomitante, cometer um crime e botar a culpa desse crime nessa pessoa que enlouqueceu, que não será capaz de se defender, por motivos óbvios, e, porque leva tempo para realizar a violência sofrida e tempo para provar a própria inocência.

golpe de distinção social digna de "colarinhos brancos" a serviço de "colarinho dourado".

na gíria corporativa é chamado de "moer gente".

se um grupo de 400 pessoas de gente constrangida der 400 socos, apenas um soco de cada um, matam alguém. isso é um linchamento material.

se um grupo de 400 pessoas de gente também constrangida agredir, psicológica, sistemática, verbal, moral, política, social, econômica e/ou socialmente, e cada uma delas agredir apenas uma ou duas vezes alguém (e nem é preciso cada uma repetir a agressão), vai desorientando essa pessoa, machucando por dentro, e essa pessoa enlouquece e/ou se mata. isso é um linchamento imaterial.

tudo isso não pode emergir, a violência física dos poderosos é bastante visível, a violência material dos poderosos deixa rastro em toda cidade, já a violência imaterial dos poderosos não deixa rastro, então, para fazer manutenção desse poder desumano, é preciso calar, invisibilizar, silenciar, censurar, cancelar, perseguir, linchar, apagar e isolar suas vítimas.

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

mameluco beleza

dona Ivone Lara (1921-2018)
grande dama do samba

foi enfermeira e conhecia serviço social,
trabalhou com Nise da Silveira,
com música e com saúde mental.

no Instituto de Psiquiatra
do Engenho de Dentro
fez musicoterapia.

"...quem não saltar agora só em Realengo..."

o Aldir Blanc esteve nesse lance

toca raul

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

efeméride entidade

minha identidade
não é fixa, imutável,
ou ditada do exterior

molda e é moldada
nos encontros
e nos mundos

como pode ser

hoje não sou ontem
e amanhã não serei hoje

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Fundo do Poço

_Socorro! Aqui, no fundo do poço!
_Onde?.. Ah, você está aí?
_Me ajuda, joga uma corda, chama ajuda!
_Não dá
_Por que não?
_Você tem dinheiro?
_Pelamor, tô no fundo do poço!
_O que você tem?
_Só fome, sede e frio, me ajuda, por favor?
_Você tem orifícios?

Tá assim nosso mundo midiotizado.

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